Doentinha

Acho que uma das piores coisas que pode nos acontecer é ficar doente fora de casa. Pera, mas aqui é minha casa agora. Bom... ficar doente longe de um sistema ao qual estejamos acostumados e consigamos entender o que se passa. 

Eu já até estava acostumada a talvez ter uma crise de asma quando era mais nova. E sabia o que falar, como explicar os sintomas e no geral quais medicamentos e tratamentos seriam prescritos. Mas aqui, na Finlândia, aconteceu tudo completamente diferente. 

Há pouco mais de um mês comecei a acordar com dores no corpo. E ao final do dia, quando íamos passear na floresta juntos, eu sentia um pouco de tontura e meu ouvido tapava. As vezes durava minutos, outras vezes pouco mais de uma hora. Também sentia uma dor de cabeça estranha, como se fosse pressão. Passei então a perceber que estava pressionando os dentes ao dormir, rangendo. Tentei diversas coisas que pudessem aliviar o estresse e a tensão. Mas os sintomas estavam piorando.

Não conseguia entender ao certo porque isso estava acontecendo agora. Mudei meus hábitos alimentares para melhor, estou fazendo exercícios constantemente e levando uma vida mais feliz, equilibrada e saudável. Mas meu corpo estava em desacordo. Nem posso dizer que tudo isso foi uma mudança drástica. Ela já vinha de algum tempo e nem sou tão rígida assim. Mesmo sem entender nenhum motivo, não dava para ficar ignorando o que estava sentindo. Chegou a um ponto em que meu ouvido direito não destampou mais. Ficou tampado e pronto. E a cada dia a audição piorava. E as pessoas falavam embaixo d'água e cada vez mais distante. Fiquei dependente do meu ouvido esquerdo estar bom e de discernir as palavras que me soavam com eco. A normal praticamente junta com a distorcida, embaixo d'agua. Em alguns dias tinha tontura, mas nada de vertigem.

Já havia ido a clínica geral que me receitou um relaxante muscular, também suspeitando que tudo isso vinha do bruxismo e de tensionar os músculos da face ao dormir. Fui à dentista e fizemos aquela plaquinha para proteger os dentes. Mas eu ainda sentia que tinha algo mais, não era somente isso. E nada do que estava fazendo até o momento havia funcionado.

Uma noite, eu fiquei tão ruim que não conseguia escutar nada do lado direito. Escutava apenas um zumbido altissimo que me prejudicava escutar qualquer coisa, mesmo que com o outro ouvido. Estava cansada, desesperada, chateada. No dia seguinte, lá estava eu no otorrino. Que fez diversos exames e não constatou nada físico. Disse apenas que não deveria estar relacionado ao bruxismo e me encaminhou ao hospital da cidade para exames mais aprofundados e a opinião de outros especialistas.

Os exames físicos mais uma vez foram bons, normais. O exame de audição péssimo. Um dos especialistas comentou que poderia ser acúmulo de líquido no ouvido interno e eles me receitaram tomar diurético por um mês. Também deixaram marcada uma ressonância magnética e um retorno para mais de um mês depois.

Comecei os diuréticos e de início foi péssimo. O ouvido não melhorou rápido e eu simplesmente perdi toda a força do corpo. Mal conseguia ir da cama pro banheiro. Passei uns dias assim e precisei reduzir o diurético pela metade para começar a recuperar a força. E ainda demorou mais de uma semana para me adaptar e passar a tomar o remédio todo como deveria.  Aos poucos meu ouvido as vezes retornava à normalidade por alguns minutos. E depois já tampava. Mas com mais uma semana de remédio, eu estava praticamente normal novamente.

Depois de um mês de remédio, estava com medo de parar de tomá-lo e ter sintomas novamente. Mas até agora são raros os momentos em que minha audição some ou muda. Existem, mas agora isso só acontece um ou duas vezes na semana, por não mais que alguns minutos. Os exames de retorno foram bons.

As primeiras idas ao médico foram aventuras quase de outro mundo. Eu mal conseguia discernir qualquer idioma. Mesmo português e inglês. Ficava tentando ler lábios e falhando completamente. Finlandês então... nem pensar! Ficava aterrorizada. Aos poucos comecei a me acostumar com o jeito que moviam os lábios e acho que meu cérebro também passou a categorizar o ouvido esquerdo e o direito separadamente. E de alguma forma quando alguém falava comigo, eu conseguia sintonizar apenas o lado esquerdo e entender um pouco do que me era dito. Tudo isso num lugar em que eu não sabia nem para onde ir, quais direções seguir dentro das clínicas e hospitais e o que exatamente falar. Não sabia o que esperar e acho que isso era o mais assustador.

O sistema finlandês de saúde foi tranquilo. No geral fácil (após aprender como funciona). Marquei a primeira consulta online mesmo, olhei até o CV dos médicos no site e escolhi o que tinha mais a ver comigo no horário que eu poderia ir. Compareci com meus documentos e a consulta foi cobrada pelo tanto de tempo que fui atendida. O hospital público teve um valor bem acessível (e na época eu ainda não tinha meu cartão de saúde finlandês). Fui cobrada 35,50 euros pela consulta, diversos exames (inclusive a MRI). O boleto chegou na minha casa e recebi num papel digitado todo o resumo da consulta. Umas duas semanas após o retorno e estar tudo bem, recebi em casa uma carta informando sobre todos os resultados e da necessidade (ou não) de acompanhamento e o número dos profissionais que acompanharam meu caso. Prático.

No final, tudo foi bem bom e deu tudo certo. O remédio deu resultado e eu me sinto muito bem. E agora continuo a jornada na Finlândia (podendo escutar o que me falam! Entender é outra história!)

Comentários

  1. Sua danadinha! A situação estava pior do que vc me passou. Ainda bem que o tratamento funcionou. Afinal , descobriu o por que do problema de audição? Bjinhos

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