18 de fevereiro de 2014

La Recoleta


Um dos lugaes mais bonitos que visitei quando esive em Buenos Aires foi o cemitério de La Recoleta.  Sempre acreditei que se você deseja conhecer a cultura de um povo você deve estudar de que forma eles enterram e homenageiam seus mortos. Então, por mais mórbido que pareça, gosto de visitar cemitérios quando estou em um país diferente. 


Logicamente, isto difere muito hoje em dia, quando falamos de países inteiros, pois os cultos hoje em dia também tem muito a ver com o dinheiro. O que os vivos podem gastar com os que se foram. Então, mais interessante ainda é conhecer cemitérios antigos, histórias distantes e imaginar quantas gerações já se passaram desde que aquela pessoa veio ao mundo. E como estão hoje. 

Aqui estão enterradas diversas personalidades argentinas. É um cemitério chique, bonito e tranquilo, bem próximo a uma feirinha hippie que acontece todos os fins de semana. Dias antes eu já estava atazanando meus amigos do curso de espanhol que queria visitar a Recoleta e conhecer o cemitério. Então um dia após nossa aula da manhã fomos eu, Sophie (EUA), Philip (Alemanha) e Christoph (Suíça) finalmente passear por lá. Fomos de ônibus e descemos no ponto certinho! Porque comento isso? Porque eu detesto ônibus! Principalmente em lugares (como aqui em São Paulo também) em que não há nome da parada nem no ponto nem no ônibus e você fica sem saber onde realmente deve descer. Mas juntos sabíamos direitinho onde descer e depois quais ruas caminhar até o local.

Primeiro paramos para tomar um café numa cafeteria que encontramos no caminho. Rolou a maior discussão sobre o que é feminismo e o que a palavra feminista carrega em cada um de nossos países. Foi bem interessante, nunca imaginei que a mesma palavra pudesse ter conotações tão diferentes dependendo da localidade. Quer dizer, eu já sabia disso, mas não imaginava que a palavra "feminista" fosse uma delas.
Delicadeza

No dia em que visitamos La Recoleta, reparei que nenhum dos outros visitantes era algum familiar dos que foram enterrados por lá. Éramos todos turistas, todos tirando fotos e todos admirados. Também não encontramos túmulos que fossem recentes (dos anos 90 para cá, por exemplo).

Algumas das personalidades enterradas em La Recoleta:

  • 5 ex-presidentes da Argentina: Nicolás Avellaneda; Miguel Juárez Celman; Bartolomé Mitre; Carlos Pellegrini e Domingo Faustino Darmiento.
  • 1 ganhador de prêmio Nobel da Paz : Carlos Saavedra Lamas
  • Evita Perón!  Atriz e ex-primeira dama argentina.
E justamente eu queria visitar o túmulo da Evita. Já havíamos visitado seu museu na Rua Lafinur, o Museo Evita. Então, já sabíamos tudo sobre ela, sua vida, carreira artística na tv e posterior vida política ao lado de Juan Domingo Perón, seu marido e Presidente da Argentina. Seu trabalho social foi muito forte em todo país e até hoje ela é tratada com muito carinho por todos.

Sol de fim de tarde

Alguns dos túmulos eram tão antigos que pensamos se ainda havia algum familiar que cuidasse deles. Pareciam completamente abandonados. Era até um pouco triste, mas fazia parecer que tinha um valor histórico grande... antigo. Algo quase arqueológico! Sim, sim... eu tenho uma imaginação muito fértil.



Sensação de abandono


Muitos dos túmulos eram unidos, como este da foto abaixo. Os caixões eram colocados em prateleiras e cada um tinha sua particularidade. Alguns desses pequenos mausoléus eram muito bem cuidados, bonitos e limpinhos. Outros, como falei acima, um pouco mais "históricos". 


Caminhamos um monte e nos perdemos diversas vezes até encontrarmos o túmula da Evita. Tivemos de pedir as direções a um senhor que estava trabalhando rodeado por gatos. E logicamente eu parei para fazer mil fotos dos felinos.

Claro que quando realmente achamos o corredor onde estava Evita e sua família, os Duarte, o local estava cheio de turistas (até mesmo um grupo com um guia) e teria sido mais fácil termos procurado pelas pessoas, teríamos achado rapidinho.




 Maria Eva Duarte nasceu em maio de 1919, na província Buenos Aires. Não se sabe ao certo em qual cidade exatamente que se deu seu nascimento, algumas fontes afirmam que foi a cidade de Junin e outras uma estância próxima. Veio de uma família pobre e simples e aos 15 anos partiu para Buenos Aires para tentar uma carreira artística. Era fascinada por cinema e artes e aos 16 anos conseguiu estrelar o primeiro filme.

Assim ficou famosa, como atriz e cantora. Em 1944 conheceu Juan Domingo Perón, que era então o vice-presidente do país e mais tarde se casaram. Evita, de atriz famosa, tornou forte defensora do direito dos pobres, atuando cada vez mais na política do país. Como atriz, era conhecida como Eva Duarte e como política, virou Evita Perón e assim todos a conhecem até hoje. 

Chegou a ser vice-presidente, mas nunca pode exercer o cargo, morreu aos 33 anos de idade em virtude de cancer de útero. 
Quando escolhi ser "Evita" sei que escolhi o caminho do meu povo. Agora, a quatro anos daquela eleição, fica fácil demonstrar que efetivamente foi assim. Ninguém senão o povo me chama de "Evita" . Somente aprenderam a me chamar assim os "descamisados". Os homens do governo, os dirigentes políticos, os embaixadores, os homens de empresa, profissionais, intelectuais, etc., que me visitam costumam me chamar de "Senhora"; e alguns inclusive me chamam publicamente de "Excelentíssima ou Digníssima Senhora" e ainda, às vezes, "Senhora Presidenta". Eles não vêem em mim mais do que a Eva Perón. Os descamisados, no entanto, só me conhecem como "Evita". Eu me apresentei assim pra eles, por outra parte, no dia em que saí ao encontro dos humildes da minha terra dizendo-lhes que preferia ser a "Evita" a ser a esposa do Presidente se esse "Evita" servia para mitigar alguma dor ou enxugar uma lágrima. E, coisa estranha, se os homens do governo, os dirigentes, os políticos, os embaixadores, os que me chamam de "Senhora" me chamassem de "Evita" eu acharia talvez tão estranho e fora de lugar como que se um garoto, um operário ou uma pessoa humilde do povo me chamasse de "Senhora". Mas creio que eles próprios achariam ainda mais estranho e ineficaz. Agora se me perguntassem o que é que eu prefiro, minha resposta não demoraria em sair de mim: gosto mais do meu nome de povo. Quando um garoto me chama de "Evita" me sinto mãe de todos os garotos e de todos os fracos e humildes da minha terra. Quando um operário me chama de "Evita" me sinto com orgulho "companheira" de todos os homens. - Evita Perón.
 Passei a admirá-la muito, como todos os argentinos o fazem. Em tão pouco tempo, fez tanto em sua vida e por tanta gente. Fez por si mesma e seus sonhos e encontrou uma motivação maior. Algo que acho que todos sonhamos em poder fazer e muitos não conseguimos nem em 100 anos de vida.

Foi um dia bastante gostoso e saímos de lá para tomar um sorvete. Algumas das melhores sorveterias ficam no bairro da Recoleta. Abaixo, vocês podem conferir o restante das fotos do cemitério, os gatos que me encantaram e meus companheiros de passeio. 

 Os mil gatos
Alguns dos mil gatos

Pensando na vida...

 Os companheiros de passeio
Eu e Sophie, dos EUA
Philip, da Alemanha, e eu
Eu, Christoph e Philip
Clássica
Corredores e túmulos








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15 de fevereiro de 2014

As águas de Tigre

 Na minha segunda semana na Argentina, convidei duas amigas do curso para conhecerem a cidade em que eu estava hospedada, Tigre. Havíamos combinado que no domingo seguinte (após termos as três ido a um show superlegal juntas no dia anterior) elas me encontrariam na estação de trem de Tigre.

Após alguns desencontros, no achamos no McDonald's. Com certeza, um dos melhores pontos de referência de qualquer lugar quando você precisa encontrar alguém.

O local era uma praça/pier/porto, tudo junto. Havia uma grande quantidade de stands vendendo passeios e barco, que poderiam incluir guias turísticos, almoço, piscina, etc. Optamos um passeio de 30 minutos de barco até uma das ilhas de Tigre (escolhemos a ilha de Tres Bocas) e pretendíamos almoçar por lá. Pegamos uma fila para entrar no barquinho e pronto. Passados uns 20 minutos, já estavamos sentadas bem na frente do barco, só esperando que ele saísse.

Isabelle (Suíça), Rachel (USA) e eu
Eu adoro passeios de barco, sempre gostei. Houve até um tempo, quando novinha, que sonhava em ser da marinha. Sentei no meu lugarzinho, ficamos todas bem juntinhas para que coubessem mais e mais turistas e passamos a olhar para fora. Eu já tinha minha mão esticada na direção da água, pronta para receber todos os respingos.

Chegamos na ilha de Tres Bocas e começamos a adentrar nas trilhas. Encontramos um riozinho e seguimos um tempo por ele, tirando fotos e observando as casinhas. O mais legal era que o que víamos era muitas vezes o lado dos fundos da casa. O lado da frente estava virado para o rio por onde havíamos chegado, na "frente" da ilha. Imaginei quem morava ali e do que vivia. E muito além de um local turístico, notamos pequenas construções e moradias, um único mercadinho e uma escola infantil. 

Após muito caminhar retornamos ao "ínicio" da ilha (o local onde o barco atracou) e nos sentamos na varanda de um restaurante por lá. Eu sou sempre a azarada quando peço comida fora da minha cidade local. Se eu não focar em comidas "fáceis" ou "infantis", eu acabo pedindo algo que não gosto ou que vem justamente de um jeito que eu não como, sempre entendo errado o que era o prato e ele vem apimentado, duro, etc etc. Sou bastante fresca com comida. Mas neste dia, eu fui a sortuda. Minhas amigas ambas pediram um "vacio", que veio completamente duro e que elas mal conseguiam partir. Meu prato estava gostoso, era simples, nada como os restaurantes de Buenos Aires, mas bem feitinho.

Adorei o dia. Eu estava super cansada ainda da nossa ida ao show da banda "Ondavaga", mas aproveitei ao máximo. Fotos, conversa fora, e planos para a semana seguinte. Nós identificamos muito, as três. Todas sem emprego, procurando uma paixão na vida, sonhando em decidir o futuro.

Após o almoço passeamos pelo outro lado da ilha, onde vimos até um restaurante abandonado, que havia pegado fogo meses antes. Também vimos uma lancha quase toda engolida pelo rio. Pensei na tristeza do dono e na beleza da paisagem também. Um conflito de sentimentos. Alias, durante o caminho de barco, o que mais vimos foram barcos abandonados pelos cantos, formavam algo tão bonito e triste. Muitas já pareciam estar ali por décadas, tamanho era o estrago feito pela natureza.

Agora... as fotos :)

Saindo

Bem acompanhada sempre!


Mãozinha para fora!


Barco abandonado

Aceito morar aqui. Pode ser minha "casa de campo"?
Um dos clubes nas ilhas próximas

A ilha de Tres Bocas




Eu observando a vida :)
Rachel
Trilha

Imagina morar aqui!?
Eu, Isabelle e Rachel






Mapa da ilha
Imagino a cara do dono ao encontrar seu barco assim...


Ex-restaurante, tomado por um incêndio meses antes









Clássica



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