9 de fevereiro de 2009

Dedicação

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Esperava por mim mãe que havia ido ao banheiro do shopping. Não me lembro ao certo o que fomos fazer, provavelmente apenas passar um tempo juntas, comer alguma coisa, já que eu estava hospedada na casa de meu pai e não tinha a oportunidade de conviver com minha mãe todos os dias.


O shopping estava lotado, gente conversando para todos os lados. Sentei-me para esperá-la no banco mais próximo das escadas e dos banheiros e ali fiquei por alguns minutos. E que minutos!!! Estava imersa em pensamentos distantes, como quase sempre, e mal prestava atenção às pessoas a minha volta quando ao meu lado uma senhora levantou-se dando espaço para que uma moça, pouco mais velha do que eu se sentasse as pressas, com medo de que alguém roubasse aquele lugarzinho primeiro.
Ela segurava dois livros pesados, na realidade, duas apostilas mal zerocadas e com falhas em algumas partes do texto, que mal dava para ler de tão claro.Com o rabo do olho continuei observando. Era uma apostila de inglês, e a moça a abriu cautelosamente para estudá-la. A página correspondia a "Colours and Numbers"e não havia nenhuma espécie de tradução para o portugues , de modo a tornar a vida da moça mais fácil. Girei minha cabeça delicamente em sua direçao, esboçando um sorriso motivador para caso ela também estivesse me observando. Não estava. Passava os dedos finos pelas palavras, como se degustasse de um sabor suave e de dificil compreensão.
Colours... meus olhos pareciam não se conter e estagnados, reteram-se aos desenhos em preto e branco da apostila xerocada, que provavelmente no livro original indicavam as cores... Agora ela teria que adivinhar! Fiquei até um pouco triste com os exercicios seguintes: ligar desenhos em preto e branco com os nomes das cores relacionadas a eles em inglês. Senti que meus olhos acompanhavam cada desenho juntamente com os dedos da moça, finos, o esmalte quase desfeito, mas ainda uma delicadeza natural e acolhedora.
O ambiente continuava como antes, barulhento, confuso; mas agora como ela, eu me sentia entorpecida ao olhá-la... e ela ao estudar o livro. Minha mãe saiu do banheiro reclamando baixinho da fila que havia enfrentado e eu logo contei-lhe da moça dedicada que estivera sentada do meu lado. Meu lugar já havia sido preenchido, mas a moça do livro xerocado ainda estava por lá, na mesma página, com a mesma expressão calma e distante.
Até ali eu não havia me preocupado em pensar nada daquela situação. Nada que me tirasse o sono, nem nada que me fizesse dormir mais rápido. Mas, minha mãe, voltando seu rosto para trás afim de encontra-la me disse sincera:

--É incrivel o que as pessoas determinadas fazem quando querem realmente
estudar. Ela não deve ter tempo para isso e em seu horário
de almoço ou do trabalho, mergulha em seu livro... mesmo que ele não
lhe ofereça o que realmente ela precisa.
Reduzi meu passo ao descer as escadas, mas não podia mais vê-la. A moça do livro xerocado havia desaparecido do meu campo de visão, mas ainda devia estar lá, distante do mundo e de si mesma. Encolhi em seco ao sentir que meu estomago reclamava de decepção. Decepção comigo mesma... acho que poucas vezes tive a mesma determinação, a mesma vontade de atingir um objetivo... O vento soprou contra mim tentando me inundar de desejos e promessas... eu poderia ser assim... mas faltava-me tanto... estava tão distante disso! E sentia-me tão pequena por isso.
Ela não queria saber de nada, talvez só de seu objetivo final; não se importava com nada, o barulho não a atrapalhava e muito menos parecia que o livro colorido xerocado em preto e branco era um entrave a seu aprendizado. Ela ainda estava ali, atenta, ignorando-me completamente quando enquanto eu a observava atenta.
Cheguei em casa, deitei na cama com um livro da monografia ao meu lado. Não parecia dificil. O calor era insuportável e não havia um vento que me ajudasse. Segurei o livro e caminhei até a sala, onde meu pai assistia a algum programa de esporte, em um volume mais alto do que aquele que eu desejava, coloquei um fone de ouvido com uma música de fundo que me lembrava a natureza. Senti-me melhor e enfim... pude me concentrar um pouco!

9 comentários:

  1. Oi Nadja, vim retribuir a visita e conhecer seu blog, adorei o texto, também queria ter essa determinacão dessa moca, muitas vezes também já me senti pequena assim como você ao ver pessoas enfrentando adversidades com garra e eu sem a adversidade e ainda estática, mas acho que mesmo não tendo a mesma garra que ela, talvez a nossa garra apesar de parecer menor de todo jeito nos faz alcancar o que queremos.
    Vou colocar o link do seu blog no meu, assim fico acompanhando suas postagens.
    Depois volto pra ler o blog todo.
    Beijo

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  2. As vezes falta-nos um pequeno toque de motivação, disciplina, para conseguirmos mais do que aquilo que vivemos reclamando que ´nao conseguimos`.

    Infelizmente nós brasileiros nao temos essa cultura acirrada de aproveitarmos todas as oportunidades, temos o hábito de conseguir tudo ´com jeitinho`. Quando se vive em outro país, principalmente, é que abrimos os olhos para isso, a comecar pela barreira do idioma...

    Esse tema tem tudo a ver comigo, e lá no fundinho lendo o texto, uma vozinha interior ia me dizendo ´toma vergonha moler` hehe

    Nao desprezando os outros, mas esse foi o melhor texto, quase me emocionei.

    Rumo às caças, Esmeralda!

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  3. Lindo texto Nadja, fiquei aqui, pensando na minha vida, nas minhas atitudes....

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  4. Nadja, a vida nos apresenta muitas situacoes como esta e muitas vezes nao sabemos mesmo que fazer.

    Um beijo

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  5. Olha, eu tenho vivido isso ultimamente, procurando motivação para fazer tudo porque meu sonho é muito lindo e quero realiza-lo. eu descobri que posso ser grande e que posso ir além, sobretudo quando existe um sonho em jogo. e sinceramente, a mulher do livro xerocado é uma dentre tantas que precisa ser forte e correr atrás daquilo que almeja, como todos nós

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  6. É caçadora... Passou por minha cabeça o mesmo filme que passou pela sua.

    Mas ao mesmo tempo que devemos ver essas pessoas com admiração, também não devemos nos recriminar. Pegue a experiência dada a você e aproveite positivamente, sem culpa. Acho que a moça do livro xerocado ficaria feliz se fosse lembrada dessa forma ^^

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  7. Nadja, passa lá na Vitima da quinta e veja se vc sabe quem é.

    http://vtmadaquinta.blogspot.com/

    Abracos

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  8. Vc é jovem.
    Reconheço o valor da moça do livro xerocado mas tb reconheço o seu, ao prestar atenção em outra pessoa- isso é raro.
    Qt a sua própria determinação, pense que ela é sua e não das moças de livros xerocados.
    Cada qual no seu ritmo , sua motivação, seu tempo.
    Gostei, viu?

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  9. Ola moça observadora! Estou retribuindo a visitinha. Com o texto da moça do livro xerocado ví uma contadora de histórias que sabe inebriar o leitor facilmente!Mais um talento! Seja bem vinda quando quiser vir tomar um chá!..rsrsr Beijonho e bom feriado de carnaval.

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